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Captação de Recursos no Terceiro Setor: fontes, estratégias e ética

Nuvem de palavras com os termos centrais da matéria 'Captação de Recursos no Terceiro Setor: fontes, estratégias e ética' no Terceiro Setor

Essencial

  • Captação de recursos é o processo de buscar contribuições para sustentar a missão de uma organização. É mais que pedir dinheiro: é construir relações de longo prazo.
  • As fontes se dividem em três grupos: recursos privados, públicos e geração de renda própria. Depender de uma só fonte deixa a organização vulnerável.
  • Transparência e ética sustentam o fluxo de recursos. O código da ABCR, por exemplo, desaconselha pagar o captador por porcentagem do valor captado.

Sem recursos, nenhuma causa se sustenta. A captação é o que mantém as organizações do Terceiro Setor de pé. Esta página explica quatro pontos. O que é captação. Quais são as fontes disponíveis. Como funcionam as leis de incentivo. E por que a transparência é central no processo.

O que é captação de recursos

Um processo planejado para sustentar a missão, não um pedido pontual.

Captação de recursos é o processo organizado de buscar contribuições para viabilizar a missão de uma organização. As contribuições vêm de pessoas, empresas, fundações ou governos. O objetivo não para na arrecadação. A meta maior é a sustentabilidade econômica , a capacidade de a entidade ter recursos para cumprir sua atividade-fim sem déficit crônico.

O setor passou por uma mudança de cultura. Saiu de um modelo de “pedir dinheiro” para um modelo de “oferecer impacto social”. O captador deixou de ser um arrecadador pontual. Virou um gestor de relacionamentos. A profissão é reconhecida no Brasil: o Código Brasileiro de Ocupações registra o captador de recursos sob o código 4110-55, a pedido da ABCR, desde 2021.

As fontes de recursos: a matriz de financiamento

A regra de ouro é diversificar.

A sustentabilidade de uma organização cresce com a variedade de fontes. Quem depende de um único grande doador ou só de repasse público fica vulnerável. A matriz de financiamento se divide em três grandes grupos.

Recursos privados. Vêm de pessoas e empresas. Na base estão os doadores individuais, por campanhas pontuais ou doações mensais recorrentes. O financiamento coletivo (crowdfunding) amadureceu no Brasil. No topo estão os grandes doadores, que exigem relacionamento de longo prazo. Uma fonte em alta é a doação por testamento.

Fontes corporativas. As empresas migraram da doação reativa para o investimento social privado (ISP), ligado às metas de ESG. O marketing de causa, em que parte da venda vai para uma organização, é uma estratégia comum. Segundo o Censo GIFE 2024-2025, o ISP no Brasil somou R$ 5,8 bilhões em 2024 — o segundo maior valor da série. A maior parte foi feita com recurso próprio das empresas, sem renúncia fiscal.

Recursos públicos. Vêm de parcerias com o Estado, hoje regidas pelo MROSC. A organização pode acessar editais e termos de parceria. É preciso cumprir um plano de trabalho e prestar contas.

Geração de renda própria. Inclui venda de produtos ou serviços ligados à causa e os fundos patrimoniais, que veremos adiante. Reduz a dependência de doações externas.

Leis de incentivo e parcerias públicas

O Estado abre mão de parte do imposto para financiar causas.

As leis de incentivo fiscal permitem que empresas e pessoas destinem parte do imposto devido a projetos sociais. É uma forma de renúncia fiscal. A mais conhecida é a Lei de Incentivo à Cultura, a Lei nº 8.313/1991 (Lei Rouanet). Há também leis para esporte, saúde e fundos da criança e do idoso.

O acesso a esses recursos ainda é baixo. Estima-se que a maioria das empresas aptas a usar leis de incentivo não aproveita todo o benefício a que teria direito. Isso aponta uma falha de comunicação do setor, há espaço para captar mais.

As parcerias com o poder público seguem o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC), a Lei nº 13.019/2014. Ele substituiu os antigos convênios por dois instrumentos principais:

  • Termo de fomento. Para projetos propostos pela própria organização.
  • Termo de colaboração. Para planos de trabalho formulados pela administração pública.

O MROSC mudou o foco da prestação de contas. Antes, o controle era só sobre notas fiscais. Agora, o foco está no resultado social e nas metas alcançadas.

Fundos patrimoniais e mudanças na lei

Modelos que buscam sustentação de longo prazo.

O fundo patrimonial ou endowment, é um modelo de financiamento de longo prazo. A Lei nº 13.800/2019 criou o regime jurídico desses fundos no Brasil. A ideia é simples: o capital doado é preservado e investido. Só os rendimentos são usados nas atividades da organização. Isso reduz a dependência de ciclos econômicos e mudanças políticas.

Outra mudança recente vem da reforma tributária. A Emenda Constitucional nº 132/2023 trouxe uma regra importante. As doações a entidades sem fins lucrativos de relevância pública e social não sofrem o ITCMD. Esse é o imposto estadual sobre doações e heranças. A Lei Complementar nº 227/2026 consolidou a imunidade em âmbito nacional. Isso elimina uma barreira que podia tributar doações em alguns estados.

Transparência, governança e ética

A credibilidade é o ativo mais valioso de uma organização social.

No Terceiro Setor, transparência não é só uma escolha. É uma ferramenta de prestação de contas que mantém o fluxo de recursos. Organizações que mostram seus números e seu impacto captam de forma mais eficiente. O doador quer saber como o recurso será usado e que resultado ele gera.

Algumas referências ajudam a sinalizar confiança. O Selo Doar é a principal certificação independente do setor no Brasil. Ele valida o profissionalismo da organização em eixos como governança, contabilidade, comunicação e prestação de contas. Organizações certificadas facilitam a decisão do doador.

A ética da captação também tem regras. O Código de Ética da ABCR desaconselha remunerar o captador apenas por porcentagem do valor captado. A lógica é proteger a causa: a remuneração por comissão pode levar o profissional a priorizar o resultado financeiro imediato em vez da missão. A orientação é pagar salário ou honorário fixo, o que preserva a lealdade à causa.

Tendências e o cenário atual

Tecnologia, dados e a busca por uma base local de apoio.

A captação de recursos passa por uma transformação digital. Algumas tendências se destacam para o período:

  • Uso de dados e tecnologia. Ferramentas de CRM ajudam a organizar a base de doadores. O PIX e os pagamentos em redes sociais reduzem o atrito na doação. A inteligência artificial apoia a comunicação personalizada.
  • Foco em causas socioambientais. Temas de meio ambiente, clima e inclusão ganharam espaço na agenda dos financiadores, em sintonia com o ESG.
  • Mais doações individuais. Campanhas como o Dia de Doar ampliaram a base de doadores pessoa física. O storytelling (contar histórias de impacto) engaja esse público.
  • Base local de apoio. A retração de fundos internacionais reforçou a necessidade de fortalecer doadores nacionais. Diversificar é a estratégia mais resiliente.

Essas tendências apontam um caminho. O futuro da captação une comunicação, transparência e inovação. A organização que trata a captação como função estratégica, e não como esforço pontual, tem mais chance de se sustentar.

Perguntas frequentes

1. O que é captação de recursos no Terceiro Setor?

É o processo organizado de buscar contribuições para sustentar a missão de uma organização. As contribuições vêm de pessoas, empresas, fundações ou governos. O objetivo é garantir a sustentabilidade econômica, não apenas arrecadar de forma pontual.

2. Quais são as principais fontes de recursos?

São três grupos. Os recursos privados vêm de doadores individuais, empresas e financiamento coletivo. Os recursos públicos vêm de parcerias com o Estado, via MROSC. E há a geração de renda própria, com venda de produtos ou serviços e fundos patrimoniais. A regra de ouro é diversificar.

3. O que são leis de incentivo fiscal?

São mecanismos que permitem a empresas e pessoas destinar parte do imposto devido a projetos sociais, em vez de pagá-lo integralmente ao Estado. A mais conhecida é a Lei Rouanet (cultura). Há outras para esporte, saúde e fundos da criança e do idoso.

4. O que é o MROSC?

É o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, a Lei nº 13.019/2014. Rege as parcerias entre o poder público e as OSCs. Substituiu os antigos convênios por dois instrumentos: o termo de fomento e o termo de colaboração.

5. O que é investimento social privado (ISP)?

É o repasse voluntário de recursos privados, de empresas e fundações, para fins de impacto social. Segundo o Censo GIFE 2024-2025, o ISP no Brasil somou R$ 5,8 bilhões em 2024. A maior parte foi feita com recurso próprio das empresas, sem renúncia fiscal.

6. O que é um fundo patrimonial (endowment)?

É um modelo de financiamento de longo prazo, regido pela Lei nº 13.800/2019. O capital doado é preservado e investido. Só os rendimentos são usados nas atividades da organização. Isso dá estabilidade e reduz a dependência de doações pontuais.

7. Doações a ONGs pagam imposto?

A Emenda Constitucional nº 132/2023 trouxe uma regra importante. Doações a entidades sem fins lucrativos de relevância pública e social não sofrem o ITCMD. Esse é o imposto estadual sobre doações e heranças. A Lei Complementar nº 227/2026 consolidou a regra. Confirme as condições nas fontes oficiais.

8. O que é o Selo Doar?

É a principal certificação independente do Terceiro Setor no Brasil. Valida o profissionalismo da organização em eixos como governança, contabilidade, comunicação e prestação de contas. A certificação ajuda a sinalizar confiança ao doador.

9. Como o captador de recursos deve ser remunerado?

O Código de Ética da ABCR desaconselha a remuneração apenas por porcentagem do valor captado. A comissão pode levar o profissional a priorizar o resultado imediato em vez da missão. A orientação é pagar salário ou honorário fixo, preservando a lealdade à causa.

10. Por que diversificar as fontes de recurso?

Porque depender de uma única fonte deixa a organização vulnerável. Se um grande doador sai ou um edital muda, a operação fica em risco. Combinar doadores individuais, empresas, recursos públicos e geração de renda própria torna a organização mais resiliente.

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