
A expansão de data centers voltados à inteligência artificial aumenta a disputa por terra e recursos naturais no Brasil, apontou o GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), com base em debate realizado na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho de 2026, em Niterói (RJ).
Infraestrutura física disputa espaço com comunidades
Por trás do funcionamento da inteligência artificial existe um aparato físico extenso: servidores, cabeamento, antenas, satélites e sistemas de refrigeração, que demandam energia e água em volume crescente. Esse aparato avança sobre territórios onde comunidades já residem, gerando disputa direta por espaço.
O Brasil já sedia o maior data center da América Latina, em obras no Ceará. Pesquisadores reunidos na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho de 2026, em Niterói (RJ), cobraram mais clareza nos ritos de licenciamento ambiental desses empreendimentos.
Desigualdade e falta de titulação territorial
Segundo Taís Oliveira, diretora executiva do Instituto Sumaúma, o Brasil se torna alvo dessa disputa por reunir condições ambientais propícias às instalações, somadas a índices elevados de desigualdade em áreas marginalizadas. A falta de titulação de territórios quilombolas expõe o problema: sem esse reconhecimento formal, tais comunidades ficam alijadas de políticas públicas essenciais, mesmo estando no centro da discussão sobre onde instalar data centers. “Esse é o tema de maior disputa política e econômica no cenário global atualmente”, diz.
A área ocupada por uma dessas instalações é extensa e poderia abrigar outros usos — vegetação nativa preservada, um equipamento de saúde, uma unidade escolar ou um centro cultural —, mas é destinada à construção desses grandes complexos computacionais.
Desenvolvimento sem avaliação prévia de impacto
Thiane Neves, doutora em Comunicação e estudiosa de cultura digital junto a comunidades amazônidas, avalia que o entusiasmo atual com os data centers repete uma prática antiga no país: apresentar grandes obras como sinônimo de progresso, sem detalhar o preço social e ambiental cobrado por elas.
Mesmo com legislação que obriga estudo de impacto ambiental, empresas iniciam a construção sem um plano mínimo de adaptação ao entorno. Reverter esse quadro exigiria abandonar a lógica de crescimento a qualquer preço em favor de um olhar mais atento às populações atingidas.
Consulta prévia às comunidades afetadas
Taís Oliveira sustenta que a instalação de um data center precisa ser discutida com os moradores antes da obra começar, em vez de simplesmente informada depois da decisão tomada. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) oferece o mecanismo para essa participação: a Consulta Livre, Prévia e Informada.
A mesma diretriz consta da Declaração do Comitê de Tecnologia da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, documento que defende a participação de comunidades atingidas nas escolhas sobre infraestrutura digital, efeitos ambientais e riscos climáticos.
Investimento social privado na agenda climática
Levantamento mais recente do Censo GIFE apurou R$ 368 milhões aplicados pelo investimento social privado em ações climáticas, fatia equivalente a 6% do total movimentado pelo setor.
A mesma pesquisa apontou alta relevante nos valores direcionados a resposta emergencial diante de eventos climáticos extremos, enquanto apenas 1% dos participantes citou ciência e tecnologia como prioridade de investimento.
Segundo Oliveira, equilibrar a capacidade de resposta de organizações e comunidades frente ao poder econômico das grandes empresas de tecnologia depende de verba destinada à produção de conhecimento e à disputa por voz nessas decisões territoriais. Ela observa que boa parte das zonas rurais atingidas por essas instalações ainda não tem acesso à internet.
Esta nota tem como base informação publicada pelo GIFE, fonte registrada no catálogo editorial do Vagas Terceiro Setor.
Perguntas frequentes
Quem participou do debate sobre data centers no Brasil?
Taís Oliveira, diretora executiva do Instituto Sumaúma, e Thiane Neves, pesquisadora de cultura digital em comunidades amazônidas, discutiram o tema na 78ª Reunião Anual da SBPC, em julho de 2026, em Niterói (RJ), defendendo maior transparência no licenciamento ambiental desses projetos.
Como funciona a consulta prévia às comunidades atingidas?
A Convenção 169 da OIT prevê a Consulta Livre, Prévia e Informada, mecanismo citado por Taís Oliveira para que moradores discutam a instalação de um data center antes da decisão, em vez de serem avisados depois da obra definida.
Quanto o investimento social privado destina à agenda climática?
O Censo GIFE mais recente apurou R$ 368 milhões do setor aplicados em ações climáticas, equivalentes a 6% do total movimentado, enquanto ciência e tecnologia foram prioridade para apenas 1% dos respondentes.
Fontes
- GIFE — Grupo de Institutos, Fundacoes e Empresas — Data centers revelam o custo ambiental e territorial da expansão da inteligência artificial
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