
Mais de 2,6 milhões de meninas e mulheres afegãs abandonaram os estudos nos cinco anos de governo talibã, aponta o Observatorio 3o Setor a partir de dados de agências da ONU. O Afeganistão continua sendo o único país a proibir mulheres no ensino médio e superior.
Proteção perdida com o fechamento das escolas
Catherine Russell, à frente do Fundo das Nações Unidas para a Infância, defende que a sala de aula funciona como barreira contra o trabalho infantil, o casamento precoce, a violência e o abuso — não apenas como espaço de aprendizagem. Fechar as portas da escola para as meninas, segundo ela, derruba também essa barreira de proteção.
A situação se agrava com o avanço da miséria e o deslocamento de famílias afegãs pelo território. Fora da sala de aula, meninas ficam mais vulneráveis a casamentos impostos e ao trabalho forçado, num contexto em que a rede de apoio social já opera no limite.
Ameaça à formação de mão de obra qualificada
Um estudo do Unicef, publicado em abril, estima que o país pode ficar sem até 20 mil docentes mulheres e 5,4 mil trabalhadoras da saúde até 2030, se as barreiras ao estudo feminino persistirem. O mesmo levantamento aponta recuo superior a 9% no quadro de professoras do ensino básico: eram cerca de 73 mil em 2022 e passaram a 66 mil em 2024.
Essa escassez futura atinge em cheio o atendimento à própria população feminina: menos docentes formadas resultam em menos vagas escolares disponíveis para meninas adiante, e a falta de médicas e enfermeiras reduz ainda mais o acesso das mulheres a cuidados de saúde num país onde esse acesso já é escasso.
Retração da presença feminina no serviço público
A fatia de cargos públicos ocupados por mulheres no Afeganistão caiu de 21%, em 2023, para 17,7%, em 2025, conforme o levantamento das agências da ONU citado pelo Observatorio 3o Setor. O movimento acompanha o afastamento de mulheres do emprego formal desde a mudança de governo.
Esse efeito se combina ao das barreiras escolares: a cada geração impedida de estudar, diminui o número de mulheres preparadas para assumir funções técnicas e de chefia, o que reduz ainda mais a presença feminina em cargos públicos e profissões que exigem formação.
Novas normas ampliam restrições a mulheres
Uma regra penal recente passou a tolerar agressões contra mulheres desde que não fraturem ossos nem deixem marcas visíveis pelo corpo, enquanto outra norma, voltada à separação de casais, abre espaço indireto para uniões envolvendo menores e dificulta que mulheres deixem relações forçadas. Para especialistas da ONU, esse conjunto de medidas configura perseguição de gênero, categoria reconhecida como crime contra a humanidade quando há privação deliberada e sistemática de direitos por causa do sexo ou gênero.
Essa classificação evidencia o caráter estrutural das restrições, que afetam ao mesmo tempo o direito ao estudo, o acesso a empregos qualificados e a proteção legal das afegãs. A queda no número de professoras registrada desde 2022 sugere que esse recuo pode piorar enquanto durar a proibição ao ensino médio e superior para mulheres.
Esta nota tem como base informação publicada pelo Observatorio 3o Setor, fonte registrada no catálogo editorial do Vagas Terceiro Setor.
Perguntas frequentes
Quantas meninas e mulheres afegãs deixaram a escola nos últimos cinco anos?
Mais de 2,6 milhões de afegãs pararam de estudar desde a retomada do Talibã, segundo dados de agências da ONU citados pelo Observatorio 3o Setor. O Afeganistão é o único país que proíbe formalmente mulheres de cursar o ensino médio e o superior.
O que mudou com as novas normas do regime talibã para as mulheres?
Uma norma penal recente passou a tolerar violência contra mulheres, desde que não fraturem ossos nem deixem marcas visíveis. Outra regra, sobre separação de casais, abre espaço indireto para casamento infantil e dificulta que mulheres escapem de uniões forçadas.
Como a proibição afeta a formação de docentes e trabalhadoras da saúde?
O Unicef projeta perda de até 20 mil docentes mulheres e 5,4 mil trabalhadoras da saúde até 2030 se as restrições continuarem. O quadro de professoras da educação básica já caiu mais de 9%: eram cerca de 73 mil em 2022 e passaram a 66 mil em 2024.
Fontes
- Observatorio 3o Setor — Afeganistão mantém meninas e mulheres longe das salas de aula
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